segunda-feira, 27 de abril de 2020

Por que aprendemos Português?

Por que aprendemos Português?


Falar Português no Brasil é tão comum quanto falar qualquer outra língua existente no mundo. Mas por que falamos Português e não Brasileirês? Vivemos diante dos lusitanos do outro lado do Oceano, com a ideia de que somos descendentes de Portugueses e devemos falar Português.

 

Se fosse assim, então nós usaríamos ênclise em todas as nossas orações, frases, falas e qualquer outro tipo de comunicação, pois é essa a ideia que levamos e carregamos conosco, de que falar Português é falar o Português de Portugal. No entanto, não usamos ênclise no Brasil devido ao clima tropical quente em que vivemos em nosso país. Optamos, assim, pela próclise. Quando pedimos algo, usamos o pronome antes do verbo para nos expressarmos diante do nosso ouvinte, do nosso receptor, pois soa de forma mais suave. Por exemplo, ao dizer "Me empresta seu caderno," soa mais amigável do que "Empreste-me seu caderno," que pode parecer uma ordem, algo que para os lusitanos é totalmente natural ao usar a ênclise.

 

A escolha das regras gramaticais que utilizamos no Brasil não é apenas uma questão de convenção, mas também está intrinsecamente relacionada às características geográficas e climáticas do país. O vasto território brasileiro abrange uma ampla gama de climas, que vão desde o tropical quente até o temperado, com diversas variações intermediárias. Essa diversidade climática tem um impacto significativo na articulação fonética e fonológica das pessoas e, por conseguinte, nas variações linguísticas que encontramos.

 

Um dos aspectos mais notáveis ​​dessas variações está relacionado ao uso de próclise e ênclise, uma distinção fundamental na colocação pronominal na língua portuguesa. Em regiões com climas mais quentes, como boa parte do Nordeste e do Norte do Brasil, é comum o uso predominante da próclise, onde o pronome precede o verbo. Essa escolha pode ser influenciada pelo ritmo de fala, que tende a ser mais acelerado em climas quentes, e pela busca por uma comunicação mais direta e fluida.

 

Por outro lado, em regiões com climas mais amenos, como o Sul e o Sudeste, é mais comum encontrar o uso da ênclise, onde o pronome é colocado após o verbo. Isso pode ser atribuído a uma fala com ritmo mais pausado e a uma tendência cultural para uma comunicação mais formal.

 

Além disso, a influência climática nas variações linguísticas não se limita apenas à colocação pronominal. O próprio sotaque e a pronúncia das palavras podem ser moldados pelo clima e pela geografia. Por exemplo, em regiões litorâneas, onde o clima é mais quente e úmido, é comum encontrar uma pronúncia mais aberta e relaxada das vogais. Em contraste, em regiões mais frias e secas, as vogais tendem a ser mais fechadas e pronunciadas de forma mais nítida.

 

É fundamental compreender que a língua é uma ferramenta viva e dinâmica, que se adapta às condições e às necessidades de seus falantes. As variações linguísticas influenciadas pelo clima não são erros, mas sim reflexos da diversidade e da riqueza cultural do Brasil. Essas variações enriquecem nossa língua, tornando-a mais flexível e adequada às diferentes realidades regionais.

 

Portanto, ao analisarmos as variações linguísticas em nosso país, devemos levar em consideração não apenas questões gramaticais, mas também o contexto geográfico e climático que molda a forma como nos comunicamos. Isso nos ajuda a apreciar a complexidade da língua portuguesa e a compreender melhor a diversidade cultural que caracteriza o Brasil.

 

Falar/escrever bem não significa que devemos ter o total domínio da Língua Portuguesa, até porque nossa língua está em constante modificação. O que aprendemos hoje pode mudar amanhã. No entanto, por que, então, estudar nossa língua materna? A resposta é simples: a busca pelo domínio padrão da Língua Portuguesa contribui para uma comunicação eficaz. Aqueles que buscam conhecer a língua em profundidade conseguem ler e compreender textos diversos com mais facilidade e são capazes de produzir textos bem escritos.

 

Aprendemos Português na escola principalmente para nos preparar para exames, provas e vestibulares. Isso envolve o domínio das regras da sintaxe de colocação pronominal, o conhecimento das regras de acentuação, uso correto de vírgulas e pontuações, entre outros aspectos gramaticais. No entanto, a importância vai além disso.

 

A valorização da Língua Portuguesa é fundamental para que possamos nos expressar bem. Seja na oralidade ou na escrita, a busca pelo aprimoramento linguístico é essencial. Aqueles que valorizam sua língua materna tendem a evitar o chamado "internetês," que tem se difundido nas redes sociais. Além disso, o domínio da gramática normativa é essencial para lidar com outras disciplinas em diferentes áreas de estudo, desde a Educação Básica até o Ensino Superior.

 

A língua é viva, e compreender suas nuances nos permite interagir melhor em nossa sociedade, que é rica em variações linguísticas. Portanto, estudar Língua Portuguesa não se resume a preparação para provas, mas sim a uma busca constante pelo aprimoramento da comunicação e compreensão em um país de vasta diversidade cultural e linguística.

 

Concluindo, falar Português no Brasil não é apenas uma questão de aplicar regras gramaticais, mas também requer conhecimentos sociolinguísticos. Isso se torna essencial para que as pessoas evitem constrangimentos e respeitem as diversas formas de falar presentes em nosso país.

 

A história da língua portuguesa no Brasil é marcada por uma rica tapeçaria de influências. Desde os primeiros contatos linguísticos com as línguas indígenas e africanas até a chegada dos imigrantes europeus e asiáticos no século XIX, nossa língua foi temperada por uma diversidade de povos e culturas. Essa mistura resultou no rico conjunto de sotaques e variações linguísticas que encontramos hoje.

 

Portanto, é fundamental reconhecer que não existe um "Português padrão" no Brasil, mas sim uma multiplicidade de formas de expressão linguística, cada uma com suas peculiaridades e riquezas. Falar sobre o sotaque alheio, fazer gracinhas ou julgar a forma como alguém se expressa é não apenas desrespeitoso, mas também demonstra uma falta de compreensão da riqueza cultural e linguística do nosso país.

 

Nossa língua é viva, dinâmica e moldada pelas experiências e influências de seus falantes ao longo da história. Portanto, ao invés de julgar, devemos celebrar essa diversidade linguística e aprender com ela. Ao fazermos isso, contribuímos para a construção de uma sociedade mais inclusiva e respeitosa, onde todas as formas de expressão são valorizadas e reconhecidas como parte integrante do nosso patrimônio cultural.

 

 

 

 

                                                                                   

sábado, 28 de março de 2020

A forma verbal nas palavras não é por acaso

  A forma verbal nas palavras não é por acaso
     Quando estávamos na Alfabetização (primeiro ano do primário para os mais novos), aprendemos os nossos primeiros vocabulários marcantes em nossa vida, pois foi ali que começou nossa formação intelectual enquanto estudante.
    Como bem lembramos, aprendemos lá na Alfabetização com a “professora Joaninha” (pelo menos era a da minha turma) que, para a palavra virar plural, bastava acrescentar a letra “s” ao final do vocábulo. Lindo! Fácil! “Aluno” mais “s” fica “alunos”, lógico, não é mesmo? Acrescentou-se o “s” e a palavra virou plural.
    Porém um aluno superdotado, intelectual e crítico quanto aos ensinamentos de Língua Portuguesa da professora Joaninha, fez um breve comentário pertinente em que, chamou atenção não só da professora, como dos outros alunos, colegas de classe que ali estavam.
    Joãozinho faz um comentário à professora – oh, tia, se a senhora está dizendo que para a palavra virar plural é só acrescentar a letra “s”, quando a minha mãe me pedir para comprar pão, eu vou pedir “pãos” – e logo em seguida pergunta – por que o plural de pão é pães e não pãos, já que a senhora está dizendo que é só colocar a letra “s”? – pois bem, como já disse Marcos Bagno: “nada na língua é por acaso”, ou seja, tudo na língua portuguesa tem uma explicação, basta procurar.
    Foi o que a professora fez naquele momento. Foi preciso buscar na etimologia da palavra pão para entender o porquê de o plural de pão ser pães e não pão. Como já sabemos, nós fomos colonizados por portugueses, e a linguagem não nasceu, assim, por acaso, houve uma grande transformação na língua até chegar ao português, pois o latim e o grego são as línguas que mais derivaram as palavras da língua portuguesa, foi o que houve com a palavra pão.
    Assim como a maioria das palavras da língua portuguesa, pão vem do latim <pane> que, por sua vez, quando acrescentava-se a letra “s” ficava <panes> palavra com a colocação do “s” no final para virar plural. Acontece que, a nossa língua, é uma língua que está em constantes modificações, ou seja, “pane” até virar “pão” sofreu várias modificações que os estudos dos sons da fala explicam.
    Na fonética e fonoaudiologia do português, é explicado toda etimologia da palavra pão que, quando latim, era “pane”, palavra paroxítona e com marca de nasalidade no fonema medial. Por isso que, quando se transformou na língua portuguesa, ela veio com um “til” que marca a nasalidade, ou seja, em “pane” havia a nasalização na primeira sílaba com a consoante da segunda sílaba e, para que não perdesse esse sentido de nasalidade, foi-se acrescentado o “til” na palavra em português, tanto no plural, quanto no singular – pão = (ã) e pães = (ã).
    Conclui-se, então, que, as palavras que, quando estão no plural, mudam suas terminações, como é o caso muito bem exemplificado da palavra pão, não são colocações por acaso, tudo tem uma explicação e, é na etimologia da palavra com as regras de fonética e fonoaudiologia que se encontrarão a explicação para certos vocábulos que alternam suas estruturas na forma verbal, assim, compreender-se-á de forma mais plena o porquê de certas palavras.
    Além de nos mostrar que a língua portuguesa é uma entidade viva e em constante evolução, o exemplo do plural da palavra "pão" nos leva a refletir sobre como as palavras carregam consigo a rica história de nossa língua e cultura. Cada palavra é um fragmento do passado, uma conexão com nossos antepassados e os povos que influenciaram nossa língua ao longo dos séculos.
    É fascinante pensar que, por trás de cada pequena regra gramatical ou exceção, existe uma narrativa que remonta às origens da língua portuguesa. Assim, quando nos deparamos com peculiaridades como o plural de "pão", somos lembrados da complexidade e beleza que existem na estrutura de nossa língua.
    Portanto, ao estudarmos a língua portuguesa, não apenas aperfeiçoamos nossas habilidades de comunicação, mas também mergulhamos em uma jornada através do tempo, explorando as influências culturais e as mudanças linguísticas que moldaram a forma como nos expressamos hoje. Isso nos lembra que a linguagem é muito mais do que um conjunto de regras; é uma janela para a riqueza de nossa herança cultural e histórica.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Análise linguística: O pronome pessoal "você"

    Ao longo de toda nossa vida, somos expostos à linguagem informal do pronome pessoal "você". O uso de "você" como pronome de tratamento é uma forma coloquial comum de se comunicar no meio social. No entanto, frequentemente, a concordância verbal não é eficaz ao se empregar esse pronome, como podemos observar no exemplo: "A gente chegou às nove da noite", em que "a gente" se refere a mais de uma pessoa, indicando pluralidade, enquanto o verbo "chegou" está no singular, havendo, assim, uma falta de concordância na frase apresentada.

    O que muitos de nós talvez não percebam é que estamos cercados por essa informalidade nas formas verbais ao utilizarmos o pronome pessoal "você", o qual, por sua vez, é uma forma inadequada de comunicação. Se analisarmos mais de perto como nos comunicamos com outras pessoas, iremos nos deparar com a falta de concordância, o que pode ser considerado uma agramaticalidade.

    Mas, por que falamos dessa maneira, professor? Tudo isso se relaciona com a gramática internalizada. Mesmo aqueles que são analfabetos aprenderam um conjunto de regras e funções sintáticas para se comunicar no meio social em que vivem. Eles estão falando uma língua que serve para estabelecer comunicação, e, com o uso frequente, não há julgamento ou crítica a essa linguagem utilizada para se comunicar com outros indivíduos.

    Por exemplo, se dissermos "a gente chegamos às nove da noite", causaria grande risada devido à falta de concordância entre o pronome pessoal "a gente" e o verbo "chegamos". No entanto, quando alguém diz, por exemplo, "tu é bonita", "tu chegou às nove da noite" ou "tu estudou muito", não há risadas, e ninguém percebe o desvio gramatical nessas frases. Se conjugarmos os verbos nesses casos: "tu és", "tu chegaste", "tu estudaste", veremos que são as formas gramaticais corretas do português padrão. No entanto, a linguagem coloquial é internalizada e, portanto, aceita naturalmente por todos os falantes, como ressalta Marcos Bagno em "Português ou Brasileiro" (2004), que explica que a língua é um sistema de regras que constituem a estrutura de funcionamento do idioma e que são assimiladas naturalmente por meio da prática por todos os falantes.

    Assim, é importante ter cuidado ao usar pronomes pessoais, principalmente para aqueles que farão vestibulares ou provas de processos seletivos que exigem o uso da norma culta com mais rigor. Nesses casos, a predominância do pronome "tu" é mais apropriada para estabelecer um padrão de comunicação que atenda aos requisitos dos conteúdos programáticos das provas de vestibulares. Isso não significa que devemos eliminar o uso do pronome de tratamento "você", que ainda é aceitável, mas ele não segue as normas gramaticais e não produz a concordância verbal adequada quando anteposto aos verbos.

A Linguagem como Reflexo da História: A Expressão "Vossa Mercê" nos Tempos da Escravidão

    A língua é uma entidade viva e dinâmica, moldada por inúmeras influências ao longo da história. Um aspecto fascinante dessa evolução linguística é como as relações de poder e a estrutura social de uma época podem deixar uma marca indelével na maneira como nos comunicamos. No contexto da história brasileira, podemos encontrar um exemplo notável dessa influência nas expressões de tratamento, particularmente a expressão "Vossa Mercê."

    Durante o período colonial do Brasil, a sociedade estava profundamente dividida em classes, e uma dessas divisões mais significativas era a dos senhores e escravos. Os senhores detinham o poder, enquanto os escravos viviam sob condições de servidão. Essa estrutura social rígida também se refletia na linguagem usada.

    Os senhores eram frequentemente tratados com grande deferência, e a expressão "Vossa Mercê" era usada como uma forma de respeito. Era uma maneira de se dirigir a alguém em posição de autoridade, reverência e prestígio. Em contraste, os escravos eram frequentemente chamados por pronomes pessoais mais informais, refletindo a diferença em suas posições sociais.

    O uso de "Vossa Mercê" ecoa uma era em que a desigualdade era institucionalizada, e a língua estava intrinsecamente ligada a essa hierarquia. Os escravos, cujas vidas eram marcadas pela falta de liberdade e direitos básicos, usavam expressões menos formais para se referirem aos senhores, como "você."

    Hoje, à medida que refletimos sobre nossa história e as implicações da linguagem, é importante reconhecer como essas convenções linguísticas eram uma manifestação da desigualdade e da opressão que marcaram a época da escravidão no Brasil. Embora a sociedade tenha evoluído consideravelmente desde então, é essencial mantermos essa conscientização, lembrando-nos de como a língua pode refletir e até perpetuar desigualdades sociais.

    Portanto, ao explorar a história da língua portuguesa e suas nuances sociais, podemos ganhar uma compreensão mais profunda de como a linguagem é intrinsecamente conectada à nossa história e cultura, bem como como a evolução linguística pode refletir mudanças em nossa sociedade ao longo do tempo. É um lembrete poderoso de que a linguagem não é apenas uma ferramenta de comunicação, mas também uma janela para nossa história e identidade cultural.

Considerações:
 
Conscientização Linguística: No nosso dia a dia, muitas vezes utilizamos a forma coloquial do pronome "você" sem perceber que ela pode levar a erros de concordância verbal. Isso nos lembra da importância de conhecer as regras gramaticais e aplicá-las adequadamente para uma comunicação mais eficaz.
 
Gramática Internalizada: É surpreendente como até mesmo pessoas que não tiveram educação formal em gramática têm uma gramática internalizada que lhes permite se comunicar eficazmente em seu contexto social. Isso destaca a natureza intrínseca da linguagem humana.
 
Variação Linguística: O texto ressalta a variação linguística e como diferentes contextos permitem diferentes formas de comunicação. Enquanto a linguagem coloquial é perfeitamente aceitável em ambientes informais, é fundamental reconhecer quando adotar uma linguagem mais formal, especialmente em situações acadêmicas ou profissionais.
 
Relevância para o Ensino: Essas reflexões também nos fazem pensar sobre como a gramática pode ser ensinada de maneira mais acessível e prática. O objetivo é que os estudantes não apenas conheçam as regras gramaticais, mas também saibam como aplicá-las de forma efetiva em situações do mundo real.
 
Uso de "Tu": Em muitas regiões do Brasil, o pronome "tu" é mais comum em contextos formais, enquanto o "você" prevalece em situações informais. Isso ilustra a rica variação regional presente em nossa língua.
 
Referência a Marcos Bagno: O autor Marcos Bagno é mencionado como uma autoridade no assunto. Pode ser interessante explorar mais a fundo suas ideias sobre língua portuguesa, variação linguística e como isso afeta o ensino da gramática.
 
Norma Culta vs. Variações Regionais: Reconhecer a importância da norma culta da língua, ao mesmo tempo em que valorizamos as variações regionais, nos ajuda a compreender melhor a diversidade e a dinâmica da nossa língua, que refletem a rica cultura e história das diferentes regiões do Brasil.
 
Preservação Cultural: A linguagem é uma parte essencial da cultura de um povo, e a maneira como falamos muitas vezes reflete nosso passado e tradições. No contexto do Brasil, entender como os pronomes de tratamento evoluíram ao longo do tempo nos ajuda a apreciar a rica tapeçaria cultural do país. É uma forma de honrar a história e o legado das gerações passadas.
 
Respeito e Inclusão: Hoje, à medida que a sociedade se torna mais consciente das questões de igualdade e inclusão, é crucial refletir sobre como usamos a linguagem. Embora tenhamos deixado para trás muitas das práticas discriminatórias do passado, ainda podemos encontrar vestígios delas em nossa fala cotidiana. Reconhecer essa realidade nos lembra da importância de usar a linguagem de maneira respeitosa e inclusiva.
 
Desconstrução de Estereótipos: O uso histórico de pronomes de tratamento reflete estereótipos e hierarquias sociais profundamente enraizados. Conscientizar-se desses estereótipos e entender como a linguagem foi usada para mantê-los é um passo importante na desconstrução dessas ideias preconceituosas. Isso nos ajuda a avançar em direção a uma sociedade mais justa e igualitária.
 
Educação e Conscientização: Ao explorar essas questões históricas relacionadas à linguagem, podemos usar essa compreensão para educar as gerações futuras. Incluir a história da evolução linguística em programas de educação pode ajudar os alunos a apreciar a complexidade da língua e a importância de usá-la com sensibilidade.
 
Linguagem em Constante Evolução: A língua é dinâmica, e a forma como falamos hoje é resultado de séculos de mudanças e influências. Ao entender essa evolução, podemos abraçar a diversidade linguística e cultural que enriquece nossa sociedade. Isso nos lembra que a língua não é estática, mas sim uma ferramenta que se adapta e reflete as transformações sociais.
 
O Poder da Palavra: A linguagem tem o poder de moldar nossa percepção do mundo e influenciar nossas interações sociais. Reconhecer como as palavras foram usadas no passado para manter estruturas de poder nos lembra que a escolha das palavras importa. Ela pode ser usada para unir ou dividir, para empoderar ou oprimir, e é nossa responsabilidade escolher sabiamente.
 
Diálogo Intercultural: Ao explorar as nuances da linguagem, também promovemos um diálogo intercultural enriquecedor. Isso nos permite entender melhor não apenas a história do Brasil, mas também como outras culturas enfrentaram desafios semelhantes em sua evolução linguística.
 
Mudança Social Contínua: A conscientização sobre a evolução da linguagem e sua relação com questões sociais não é apenas uma reflexão sobre o passado, mas também uma chamada à ação para moldar o futuro. À medida que a sociedade evolui, nossa linguagem também deve evoluir para refletir os valores de igualdade, respeito e inclusão.
 
Em última análise, a linguagem é uma ferramenta poderosa que não apenas nos permite comunicar, mas também reflete nossa identidade cultural e social. Ao compreender suas complexidades, podemos contribuir para uma sociedade mais justa e inclusiva, onde todos têm a oportunidade de serem ouvidos e respeitados, independentemente de sua origem ou história.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Mandioca

Mandioca: Raiz Versátil e Saborosa

No Brasil, a mandioca é mais do que apenas uma raiz tuberosa. Ela é uma parte fundamental da nossa cultura e da nossa culinária. Com diversos nomes, como mandioca, macaxeira, e aipim, essa raiz é uma fonte valiosa de alimento e história.

A mandioca, de nome científico Manihot esculenta, é uma planta nativa da América do Sul e era cultivada por várias nações indígenas muito antes da chegada dos europeus. Hoje, é um alimento básico em muitas partes do mundo, com a Nigéria liderando a produção global.

O Brasil é rico em variedades de mandioca, e essas raízes podem ser divididas em dois grupos principais: a mandioca-doce e a mandioca-brava (ou mandioca amarga). A diferença crucial entre elas está na presença de ácido cianídrico, que é venenoso se não for destruído pelo calor durante o cozimento ou secagem ao sol. A mandioca-doce é a variedade segura para consumo direto.

A utilidade da mandioca é impressionante. Ela é transformada em farinha de mandioca por meio da ralagem, prensagem e secagem da raiz, resultando em diversos tipos de farinhas usadas em pratos típicos brasileiros. A tapioca, feita a partir do fino amido da mandioca, é um ingrediente essencial em muitos pratos regionais, como beiju e bolo de tapioca.

A mandioca também desempenha um papel importante em pratos tradicionais da Amazônia, como o tacacá e o molho tucupi. Suas folhas são usadas na preparação da maniçoba, uma iguaria que combina sabor e tradição.

Mas a mandioca vai além das fronteiras brasileiras. Em várias partes da África, ela é a base da dieta alimentar, e a mandioca fermentada é usada na produção de bebidas, como o cauim. Na Ásia, a mandioca também é um alimento essencial, e sua presença na culinária local é marcante.

Além disso, a mandioca é uma fonte importante de matéria-prima para a produção de etanol, contribuindo para os esforços em direção à sustentabilidade ambiental.

A mandioca não é apenas um alimento; é uma parte viva da nossa história e cultura. Suas lendas e mitos, como a história de Mani, nos conectam às tradições indígenas e à nossa rica herança culinária.

Portanto, da próxima vez que saborear um prato de mandioca, lembre-se de que está saboreando um pedaço da história do Brasil e da contribuição dessa raiz versátil e saborosa para a nossa mesa e cultura.

A Mandioca e sua Importância na Alimentação Brasileira

A mandioca, conhecida por diferentes nomes em todo o Brasil, desempenha um papel essencial na alimentação e cultura do país. Essa raiz versátil não é apenas um alimento; é um símbolo de nossa diversidade e resiliência.

Em sua variedade de formas, a mandioca é um alimento acessível e nutritivo. A mandioca-doce, também chamada de aipim ou macaxeira, é consumida cozida, frita e em diversos pratos regionais. As famosas tapiocas são preparadas com o amido fino extraído da mandioca, proporcionando uma base neutra para combinações doces e salgadas.

No entanto, a mandioca-brava, ou amarga, requer um preparo especial devido à presença de ácido cianídrico, que é tóxico. Mas com técnicas adequadas de processamento, como ralagem, prensagem e secagem, essa variedade se transforma em farinhas que são a base de muitos pratos brasileiros, como a farofa, e até mesmo da tradicional feijoada.

A mandioca não é apenas versátil em sua utilização culinária; também é uma planta que desempenha um papel histórico em nossa cultura. Seus mitos e lendas, como a história de Mani, nos conectam às tradições indígenas e à sabedoria de nossos ancestrais.

É importante notar que a mandioca não é exclusiva do Brasil. Ela viajou por todo o mundo, especialmente para a África, onde se tornou a base da dieta alimentar em muitos países. Isso demonstra como essa raiz resiliente e rica em amido encontrou um lugar em diferentes culturas e cozinhas ao redor do globo.

No Brasil contemporâneo, a mandioca continua a ser uma parte fundamental de nossa alimentação. Além disso, ela desempenha um papel crucial na busca por práticas alimentares mais sustentáveis, como a produção de etanol a partir dessa matéria-prima renovável.

A próxima vez que você saborear um prato de mandioca, seja uma deliciosa tapioca ou uma farofa bem temperada, lembre-se de que está participando de uma tradição rica e saborosa que se estende por séculos. A mandioca é mais do que uma raiz; é um símbolo de nossa identidade e diversidade culinária. Aprecie esse tesouro da culinária brasileira e celebre a mandioca em todas as suas formas e sabores.

A Mandioca, um Tesouro da Culinária Brasileira

A mandioca é mais do que apenas um alimento; é um tesouro que permeia a história, cultura e culinária do Brasil. Com nomes diversos, essa raiz versátil desafia fronteiras e é apreciada em todo o mundo. 

Sua importância vai além da mesa: a mandioca desempenha um papel vital na sustentabilidade ambiental, como matéria-prima na produção de etanol. Ela é um exemplo de como podemos usar recursos naturais de forma inteligente e responsável.

Os mitos e lendas que cercam a mandioca nos conectam às tradições indígenas e à sabedoria de nossos antepassados. Essas histórias enriquecem ainda mais o significado desse alimento.

Em nossa culinária, a mandioca é versátil, proporcionando pratos que vão desde a simples mandioca cozida até as elaboradas tapiocas recheadas e farofas saborosas. Ela é uma parte viva de nossa cultura, unindo regiões e pessoas em torno de sua mesa.

Ao saborear um prato de mandioca, estamos celebrando não apenas o sabor incrível desse alimento, mas também nossa rica herança cultural. A mandioca é um símbolo de nossa diversidade e resiliência, uma representação viva da riqueza de nosso país.

Portanto, que possamos continuar a apreciar e valorizar a mandioca em todas as suas formas e sabores, reconhecendo-a como um verdadeiro tesouro da culinária brasileira. Ela nos lembra de nossa história, nos conecta às nossas raízes e nos une em torno da mesa, onde compartilhamos momentos especiais e construímos memórias que perduram por gerações.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Operários - Tarsila do Amaral (1933)

OPERÁRIOS – TARSILA DO AMARAL (1933)


Tarsila do Amaral e sua Vanguarda nas Cores e na Consciência Social

Para apreciar a obra "Operários" (1933) de Tarsila do Amaral, é essencial começar com uma breve exploração da vida e obra da artista. Tarsila é uma figura icônica do movimento modernista brasileiro e uma das precursoras do cubismo nas artes do Brasil. Suas pinturas muitas vezes se destacam pelo uso vibrante de cores, como o azul puríssimo, o rosa violáceo, o amarelo vivo e o verde.

Nascida em 1º de setembro de 1886 no interior de São Paulo, Tarsila teve o privilégio de estudar na Europa quando ainda era adolescente, onde teve contato com as obras dos dadaístas e futuristas. Foi por meio de sua amiga Anita que ela se aproximou dos modernistas brasileiros, incluindo Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia. Juntos, eles formaram o famoso "Grupo dos Cinco". Posteriormente, Tarsila iniciou um relacionamento com Oswald de Andrade e os dois viajaram juntos para Paris, onde a artista mergulhou no estudo do cubismo.

Mais tarde, em uma viagem à ex-União Soviética, Tarsila teve um despertar social ao entrar em contato com o socialismo. Esse período coincide com uma era de transição econômica e social no Brasil, com a década de 1920 marcada por revoltas e a transição do regime republicano para a Era Vargas, um período de forte controle estatal e industrialização. Tarsila enfrentou a prisão temporária devido ao seu envolvimento em reuniões esquerdistas e sua visita a um país comunista.

Essa experiência na União Soviética moldou a visão de Tarsila sobre o mundo social, e sua pintura "Operários" (1933) é uma reflexão vívida desse período. A tela captura o início da industrialização no Brasil e se destaca como um testemunho da fase social da artista. Os rostos representados na pintura são variados, com expressões que refletem cansaço, seriedade e tristeza. Nenhum sorriso é visível, pois esses operários estão imersos em um trabalho árduo, onde a alegria parece ausente. Seus olhares fixos parecem nos convidar a compartilhar sua experiência de trabalho árduo e dificuldades.

Além dos rostos, o plano de fundo da pintura exibe fábricas e indústrias, situando-a em um contexto social intenso. Isso representa a elite industrial que, por meio das expressões faciais dos personagens, retrata a opressão enfrentada pela classe operária. A pintura também ecoa as más condições de trabalho, agravadas pela repressão da Era Vargas, que via no comunismo uma ameaça ao seu poder.

A diversidade dos rostos na tela representa uma variedade de culturas e origens. Essa classe operária reflete um povo cansado do trabalho árduo nas fábricas urbanas, muitas vezes migrando das áreas rurais para as grandes cidades em busca de emprego e uma vida melhor. Suas expressões não apenas transmitem cansaço, mas também a insatisfação com as condições precárias de vida nas cidades.

A pintura de Tarsila não é apenas um reflexo do passado, mas também ressoa com questões sociais contemporâneas. As preocupações com a opressão das elites industriais, o desemprego devido à automação e a migração para centros urbanos ainda são temas relevantes em nossa sociedade.

Além disso, a pintura não se limita a representar apenas os trabalhadores humildes; também apresenta figuras intelectuais, como Mário de Andrade no centro da imagem e Oswald de Andrade no canto superior. Isso destaca a diversidade social e étnica presente na sociedade da época, bem como a luta coletiva contra a opressão industrial.

Tarsila do Amaral, por meio de sua obra "Operários", construiu uma narrativa poderosa sobre a identidade cultural e social do Brasil durante um período de rápido desenvolvimento industrial. Ela nos faz refletir sobre as complexidades e desafios enfrentados pelas classes trabalhadoras e como essas questões continuam a ressoar em nosso mundo contemporâneo. A pintura é um testemunho atemporal da evolução das grandes cidades, do avanço tecnológico e das questões sociais que moldaram e ainda moldam nossa sociedade.

Operários e a Resiliência Humana no Contexto Moderno

A tela "Operários" (1933) de Tarsila do Amaral nos transporta para uma época de intensa transformação social e industrial no Brasil, mas também nos convida a refletir sobre a resiliência humana em face das adversidades. Vamos aprofundar ainda mais essa análise e explorar como essa obra se relaciona com o Brasil contemporâneo.

A pintura de Tarsila, como mencionado anteriormente, é uma poderosa representação da classe operária da época, com uma multiplicidade de rostos que refletem não apenas a diversidade étnica, mas também a diversidade de experiências e desafios que as pessoas enfrentavam. Esses operários migraram para as grandes cidades, como São Paulo, em busca de oportunidades de trabalho, mas frequentemente se viram submetidos a condições de trabalho precárias e a uma vida difícil.

Essa migração em massa e a urbanização acelerada são temas que ainda ecoam em nossa sociedade atual. Grandes centros urbanos, como São Paulo, continuam a atrair pessoas de diversas origens em busca de uma vida melhor. A pintura de Tarsila nos faz questionar como essas cidades estão lidando com o crescimento populacional, a demanda por empregos e a qualidade de vida de seus habitantes.

Além disso, a substituição do trabalho humano pela máquina, que a pintura sugere, é um tema que permanece atual. Com os avanços tecnológicos, continuamos a ver mudanças na indústria que afetam o emprego humano. A questão do desemprego devido à automação é uma preocupação global, e a representação de Tarsila dos rostos preocupados e cansados dos operários nos lembra das implicações humanas dessa transformação.

É interessante observar que, além dos trabalhadores comuns, a pintura também inclui figuras intelectuais, como Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Isso reflete a convergência de diferentes camadas da sociedade em torno das questões sociais da época, um aspecto que ainda é relevante hoje. As lutas sociais e políticas não são limitadas a um grupo específico; elas envolvem uma ampla gama de pessoas de diferentes origens.

A pintura "Operários" não apenas registra o contexto social da época, mas também ressoa com questões contemporâneas, como a busca por igualdade no mercado de trabalho, a inclusão de pessoas com deficiências e a diversidade cultural. Tarsila do Amaral nos lembra que as questões sociais e as lutas por justiça são atemporais e continuam a moldar nossa sociedade.

Em resumo, "Operários" é mais do que uma simples pintura; é uma janela para o passado que nos permite entender melhor o presente. Tarsila do Amaral capturou a essência das lutas e desafios enfrentados pelas classes trabalhadoras em um momento de profunda transformação no Brasil. Sua obra nos convida a refletir sobre como as questões sociais e industriais do passado ainda ecoam em nossa sociedade contemporânea e nos desafia a considerar como podemos abordar essas questões de maneira eficaz no futuro.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Brasilianos ou Brasilotos?

CAMPANHA PELO FIM DO SUFIXO EIRO PARA VIRARMOS BRASILIANOS OU QUEM SABE BRASILOTOS.

O texto a seguir, de autoria de Luís Fernando Veríssimo, é muito interessante, pois tangencia a questão da auto-estima dos brasileiros.

Um grande a abraço a todos e boa leitura.

A leitora Elza Marques Martins me escreve uma carta divertida estranhando que “brasileiro” seja o único adjetivo pátrio terminado em “eiro”, que, segundo ela, é um sufixo pouco nobre. Existem suecos, ingleses e brasileiros, como existem médicos, terapeutas e curandeiros. As profissões de lixeiro, coveiro e carcereiro podem ser respeitáveis, mas o “eiro” é sinal de que elas não têm status. É a diferença entre jornalista e jornaleiro, entre músico ou musicista e roqueiro, timbaleiro ou seresteiro. Há o importador e o muambeiro. “Se você começou como padeiro, açougueiro ou carvoeiro” — escreve Elza — “as chances são mínimas de acabar como advogado, empresário, grande investidor ou latifundiário, a não ser que se dê ao trabalho político antes”. Aliás, há políticos e politiqueiros. Continua Elza: “Eu nunca vou chegar a colunável ou socialite se comecei como faxineira ou copeira. Você pode ser católico, protestante, maometano, budista ou oportunista ou então macumbeiro.” Mas a leitora nota que o dono do banco é banqueiro, enquanto o funcionário é bancário, o que pode ser um julgamento inconsciente de caráter feito pela língua.

Elza — que por sinal se considerava uma harpeira até começar a tocar numa sinfônica e virar harpista — me sugere uma campanha nacional para passarmos a nos chamar de “brasilinos, brasileses, brasilenses, brasilianos, brasilitanos, brasilitas, brasileus, brasilotos ou brasilões”, o que aumentaria muito nossa auto-estima e nossas chances de chegar ao mundo maravilhoso dos americanos, belgas e monegascos.”



Luís Fernando Veríssimo. Jornal do Brasil, 7 de Outubro de 1995.

Minhas considerações:

É interessante notar como a língua pode ter um impacto sutil, mas significativo, em nossa percepção de nós mesmos e de nossa cultura. O ponto levantado por Luís Fernando Veríssimo sobre o sufixo "eiro" em "brasileiro" é uma reflexão divertida sobre como as palavras podem influenciar nossa autoestima e a maneira como nos vemos.

A sugestão de Elza Marques Martins para uma campanha nacional que nos chamaria de "brasilinos, brasileses, brasilenses, brasilianos, brasilitanos, brasilitas, brasileus, brasilotos ou brasilões" destaca a importância da linguagem na construção de nossa identidade e autoimagem. Essas novas terminações nos dariam um senso renovado de orgulho e pertencimento, afastando-nos da ideia de que o "eiro" nos coloca em uma categoria inferior.

No entanto, é importante lembrar que, independentemente do sufixo que usamos para nos descrever, o verdadeiro valor de nossa cultura e identidade vai muito além das palavras. Somos uma nação rica em diversidade, história e potencial, e nossa autoestima deve ser fundamentada nesses aspectos profundos e significativos.

Esta reflexão nos lembra que, embora a linguagem possa moldar nossas percepções, é nossa responsabilidade escolher como interpretamos e abraçamos nossa própria identidade. Talvez, em última análise, sejamos todos "brasileiros" e, ao mesmo tempo, algo muito maior e mais complexo do que qualquer sufixo possa expressar. A língua é uma ferramenta poderosa, mas nossa verdadeira riqueza está em nossa cultura, em nossas ações e em nossa capacidade de criar um futuro melhor para todos nós.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A Gramática é uma área de muitos conflitos

A Gramática é uma área de muitos conflitos

A Complexidade dos Estudos Gramaticais

Segundo Irandé Antunes, na obra "Muito Além da Gramática" (2007), a gramática é uma área permeada por muitos conflitos. Quando se trata da Língua Portuguesa, surgem inúmeras certezas e opiniões divergentes. Infelizmente, essas divergências frequentemente levam a equívocos. Um desses equívocos parte da "crença ingênua" de que, para se tornar proficientes em falar, ler e escrever, basta estudar gramática. Outro equívoco, igualmente ingênuo, sugere que a gramática não deve ser ensinada em sala de aula. Em prol de ambos os lados, políticas de ensino e programas de intervenção ou orientação são implementados, porque, como diz Veridiana Rocha em 2008, "as dificuldades verbais das pessoas são dificuldades de gramática". No entanto, quando se trata de compreender ou redigir um texto mais complexo, fica evidente que "o saber gramática" é, inevitavelmente, insuficiente.

A Linguística está entrelaçada em nosso cotidiano, mas, quando se fala em gramática normativa, as pessoas frequentemente acreditam erroneamente que os estudiosos da Língua Portuguesa possuem um domínio absoluto da norma culta, gerando assim um conflito significativo sobre o que constitui o Português Padrão.

Assim como um advogado não é um detentor absoluto de todo o conhecimento em Direito, um administrador não é uma enciclopédia ambulante de Administração, e um engenheiro não sabe tudo sobre Engenharia (em todas as áreas), o linguista também não detém um conhecimento completo de todos os aspectos da Língua Portuguesa. Isso é especialmente válido, pois a maioria dos professores, senão todos, que dominam a gramática para o ensino, adquiriram seu conhecimento fora do ambiente acadêmico.

Em resumo, o domínio total implica conhecer cada detalhe minucioso, e se isso fosse possível apenas através de formação acadêmica, não haveria especializações ou doutorados.

Ao analisar os estudos de Pasquale Cipro Neto e Marcos Bagno (mencionados por Irandé), percebemos que eles representam áreas de pesquisa totalmente distintas. O primeiro é um estudioso purista, enquanto o segundo é um linguista. Nos estudos puristas, a língua é vista como deveria ser, ignorando sua "alteridade de língua".

Jamais devemos impor como as pessoas devem falar ou escrever, de acordo com as exigências impostas pela gramática normativa. No entanto, é vital reconhecer essas exigências, especialmente em provas, exames e processos seletivos para universidades e concursos públicos, onde a norma culta é rigorosamente aplicada.

Muitas vezes, pode ser difícil compreender por que ensinamos e aprendemos gramática, visto que grande parte do conhecimento gramatical tem pouca aplicação no dia-a-dia. A utilização de mesóclise ou ênclise na fala cotidiana pode soar estranha, sendo que essas estruturas são mais adequadas para testes, redações e contextos formais.

No entanto, o conflito gramatical surge devido às circunstâncias mencionadas anteriormente, levando as pessoas a relutarem em usar a norma padrão fora do contexto social, o que pode resultar em preconceitos linguísticos.

Irandé Antunes também descreve cinco tipos de gramática em sua obra. A primeira é a gramática que aborda o funcionamento da língua, focando na gramática internalizada que se desenvolve naturalmente através do convívio e diálogo.

Para o estudo da gramática normativa, a segunda perspectiva sugere que a língua seja ensinada tal como deve ser, oposta à terceira perspectiva que valoriza a língua como ela é. Isso porque existem usos da língua mais aceitos que outros, dependendo do poder econômico e político, determinando onde e quando essas variações podem ser usadas.

A quarta perspectiva envolve a aplicação de métodos de investigação sobre as línguas, considerando diferentes teorias gramaticais, como estruturalismo, generativismo, funcionalismo, entre outras, e como elas observam a língua.

A quinta perspectiva aborda a gramática de maneira mais descritiva ou prescritiva, dependendo da visão sobre a língua. Optar por uma dessas perspectivas implica na escolha de como a gramática será aplicada em um campo específico de conhecimento.

Em conclusão, a gramática é uma área repleta de nuances e divergências. Compreender sua complexidade e a diversidade de perspectivas pode nos ajudar a navegar melhor por essa área e apreciar a riqueza da língua portuguesa em sua variedade e evolução constante. A gramática é uma ferramenta valiosa, mas seu uso deve ser equilibrado com a compreensão das nuances linguísticas e o respeito pela diversidade de formas de expressão.